ANA EM VENEZA: IDENTIDADE NACIONAL E CULTURA NUM
ROMANCE DE JOÃO SILVÉRIO TREVISAN
Observando grandes obras da literatura nacional, como Iracema,de José de Alencar, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Macunaíma,de Mário de Andrade, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, entre outras, percebe-se que a pergunta O que é ser brasileiro? com todas as suas implicações (arte nacional, Brasil no mundo, tradição versus miscigenação) é intrínseca à constituição dessa literatura.
A fim de continuar essa discussão, que parece ter se tornado característica de nossa arte, pretende-se analisar como os problemas apresentados configuram-se na literatura contemporânea com o romance pós-moderno Ana em Veneza, de João Silvério Trevisan.
Reconhece-se o problema do uso de termos como pós-moderno, pós-modernismo, pós-modernidade. Alguns estudiosos não aceitam tais conceitos, afirmando que os mesmo constituem mera continuidade do que se entende por moderno. Porém, como afirmou Teixeira Coelho (1995), continuidade ou não, é inegável que a sociedade, e conseqüentemente a política, a economia, a arte, a religião e a própria sensibilidade humana têm-se diferenciado cada vez mais desde a II Guerra.
De fato, a arte contemporânea abrange as mais díspares realizações influenciadas pela tecnociência e pela informação de massa que caracterizam a sociedade atual. Tal produção vai desde a retomada de traços modernistas até a intervenção do artista no real, da novela televisiva até romances introspectivos, bem como instalações, performances e música popular. Todos esses fenômenos, somados à propaganda de estímulo consumista, à constante produção de novidades e ao vertiginoso avanço tecnológico, bombardeiam o homem, constituindo um saber não-assimilado, fragmentado, superficial.
Além disso, Linda Hutcheon comprovou em recente estudo (1991) a existência de uma poética da pós-modernidade. Poderia-se mesmo realizar uma leitura pós-modernista de Ana em Veneza, que dá voz a personagens desprezados pela história oficial como a ex-escrava Ana, além de relativizar categorias como o tempo e intercalar diferentes focos narrativos, renovando, desse modo, uma velha forma romanesca, o romance histórico.
No entanto, intensiona-se aqui “ouvir” o que a obra tem a dizer, ou seja, como o livro de João Silvério reflete a realidade cultural de sua época, bem como de seu passado. É nessa reflexão que se apresentam os elementos de pós-modernidade de Ana em Veneza: a consciência da condição humana atual e o pensamento crítico em relação ao presente e ao passado artístico.
Cronologicamente, a diegese inicia-se em 1858 com a partida da família Brunhs de Paraty em direção à Lubeck, Alemanha. As personagens principais dessa família são Júlia, cujo apelido é Dodô, então com 6 anos e Ana, sua jovem mucama. Trinta anos depois deixa o Brasil o músico Alberto Nepomuceno, com objetivo de estudar nos renomados conservatórios europeus.
É a situação de viagem, mais do que isso, de estrangeiro que propicia discussões acerca de valores estéticos, conflitos humanos e sentimentos nacionais. O contraste entre cultura mestiça e tradicional é uma das constantes desse romance e pode ser observada na trajetória individual de cada personagem como a inadequação de Ana ao povo nórdico, o confronto entre a música multi-racial de Alberto com a tradição musical alemã e, ainda, a indelével marca de brasilidade no caráter de formação alemã de Júlia. Da mesma maneira, o encontro dos três em Veneza é marcado pelo problema da identidade. Porém, com um aprofundamento que, se não produz soluções, resulta em revelações que delineiam, destacam, redimensionam mesmo as dúvidas acerca da nacionalidade e da individualidade.
Toda essa discussão tem como diretriz a arte, especialmente a música. Isso já se faz notar na estruturação diegética – a introdução é um prelúdio e os capítulos são denominados andantes, adagietos, alegros. O referido prelúdio é uma entrevista com o compositor Alberto Nepomuceno datada 1919. A narração do diálogo é realizada pelo próprio interlocutor, mero coadjuvante do conflito entre o músico e a história de sua nação e de sua produção.
Assim, Nepomuceno faz um balanço da própria vida (artística e pessoal), da arte no Brasil, da música nacional frente à tradição européia. Inicialmente fala de Villa Lobos e suas raízes verdadeiramente brasileiras, sua personalidade moderna e suas pesquisas acerca do folclore. Comenta a influência de compositores estrangeiros como Debussy e Wagner e questiona o aproveitamento das mesmas. Já aparecem aí críticas a algumas características modernistas como o pastiche e a paródia. Por outro lado, condena o senso-comum dos temas nacionais como a exuberância natural e o exotismo. Suas ponderações sobre o povo brasileiro apontam para uma das conclusões do romance: a indefinição e a dor. Adotando o ponto de vista defendido por Paulo Prado em Retrato do Brasil, Alberto Nepomuceno afirma: “No fundo, a alma brasileira é pura dor. (...) Foi o melhor que pude dar de mim, a tristeza”(p.27). Mas aí não se presentifica apenas a tristeza que Paulo Prado analisou como produto da cobiça e da luxúria, acrescenta-se ainda a busca do impossível, uma definição para si mesmo, sua obra e sua pátria.
Na primeira parte – “Lubeck, bem longe (Larghetto lamentoso)” – retorna-se a 1858 e ocorre a descrição da despedida, da viagem e da adaptação da família Brunhs à nova situação, mais especificamente de Dodô que conhecia apenas a fazenda onde morava em Paraty, ao contrário de seus irmãos que já estudavam em internatos na capital.
Intercalando narração em 3ª pessoa (que já não é o narrador personagem do prelúdio, mas onisciente) com fluxos de consciência da menina Júlia, a ação apresenta-se simultaneamente objetiva e subjetiva. É assim que se percebe a evolução da personagem, de Dodô a Júlia Mann, desde a dolorosa despedida de Paraty até a aparente adequação.
Vale ressaltar que tal processo é gradativo mesmo na narração, pois é possível acompanhar a aquisição da língua alemã paralela ao esquecimento da língua portuguesa, bem como a recusa à Igreja Protestante pela personagem. Se no início Dodô achava aquela língua (alemã) esquisita e sentia falta de coisas que só tinham nome, ou seja, existiam no Brasil, como o abacaxi; com o passar do tempo ela passa a perguntar “Não é assim que se diz em brasileiro?”(p. 176) e chega a tomar decisões drásticas como não conversar com Ana e escrever para o pai (que acaba retornando ao Brasil) apenas em Alemão. Do mesmo modo, a menina que se assustava com o despojamento da Igreja de Lutero: “não tem nada dentro dá até aquele frio na espinha de tanto medo (...) não seicomo Deus pode morar num lugar desses”(p.126) e adorava “a linda Nossa Senhora daconceição, coroada de pratas e águas-marinhas, e muito sensual com seus braceletes,colares e brincos”(p.77), passou a desejar a confirmação, ritual de batismo protestante.
“Rumo a Roma”, Alberto Nepomuceno na segunda parte (Andante appassionato) parte “em direção ao nada”(p. 206). Sua despedida do Brasil dura todo o percurso da viagem e é marcada pela saudade e por inúmeras dúvidas – o que o esperaria, qual seria sua missão, se um dia voltaria.
Da primeira para a segunda parte a ação dá um salto no tempo: de 1867, ano em que Júlia recebe a confirmação protestante, passa-se a 1888, quando Alberto, então com 24 anos, deixa o Brasil para, enfim, descobri-lo. Ainda dentro do navio o jovem músico começa a sentir-se brasileiro: primeiro por causa da saudade, que instala seu reino mesmo antes da partida. E depois, através de pequenos confrontos, como o jeito de descascar laranjas em espiral que os argentinos tanto admiram (p. 239).
Registrando o presente por meio de um diário de bordo e revivendo o passado através de fluxos de consciência, Alberto reflete sua condição de estrangeiro – tanto na Europa, ou o caminho dela, quanto em seu próprio país – associada à responsabilidade que tomou para si pelo destino nacional, ou seja, a tarefa de criar a música brasileira:“(...) imagino que o andamento brasileiro típico seria o allegretto. Talvez allegretto com variazioni – de humor, rumor, calor, ai que preguiça!(...) Poderia ser: allegro com sobressaltos, ou tristemente contido, ou choroso por entre risos, (...) ou saudoso com suspiros (...)”.Sempre as contradições nacionais...
Depois de dois anos de dificuldades financeiras e insucessos na Itália, quando tanto a Europa quanto o Brasil parecem exigir sua volta, Alberto Nepomuceno ganha uma bolsa de estudos e pode, enfim, realizar seu sonho: freqüentar os conservatórios alemães. Assim, o sempre estrangeiro vivenciará diversos encontros – com a morte, com Júlia, com Ana – que se revelarão uma e a mesma coisa: encontro consigo mesmo e, conseqüentemente, com sua pátria.
Mas, na verdade, será a imensidão da presença de Ana que reunirá e dará significado a todos os fragmentos de vida de Alberto. Em Veneza, na mesma praia, não longe um do outro eles sofrem a mesma dor, cantam a mesma saudade e, quando se encontram, parece que “cada qual encontrou a parte do Brasil que lhe faltava” (p.355).
O segmento do romance dedicado ao processo de integração de Dodô à nova pátria pouco menciona o destino da ex-escrava, o que é compensado nessa 3ª parte em que a própria Ana descreve sua vida na Alemanha. Sem saber que está dando a Alberto uma verdadeira aula de sensibilidade, força e brasilidade a mucama, agora velha e doente, conta como defendeu-se da hostilidade do velho mundo.
A inadequação de Ana já se faz notar em sua linguagem que mistura sons, palavras e sintaxe do português e do alemão. Ela foi proibida de comunicar-se com sua pequena Júlia em português, nunca recebeu aulas de alemão, foi maltratada e, ao tentar voltar para o Brasil foi assaltada; apaixonou-se e fugiu com um artista pobre e alcoólatra que acabou morrendo, passou a trabalhar num circo e assim conheceu toda a Europa, eterna estrangeira, até adoecer gravemente e recorrer à sua Dodô, agora Frau Júlia Mann.
Ana sente a morte iminente e demonstra total consciência de sua condição – desenraizada, só e sem respostas. Essa a sua lição: “No espaço de uma vida pouquíssimas respostas são encontradas. O máximo que se consegue é aprender a fazer perguntas” (p. 422), pois somente a morte é completa. Nela, “como num mar calmo cujas águas já não são estrangeiras”, o eu encontra-se a si mesmo (p. 503).
A 4ª parte (alegro bárbaro) fecha o romance com um balanço da história artística brasileira através de uma entrevista como Alberto Nepomuceno numa estação de Berlim, já que o mesmo está prestes a viajar para Viena. Porém, nesse caso, o jornalista não é um simples espectador, mas um verdadeiro “advogado do diabo” – que tem o mesmo nome do personagem de Doutor Fausto, Adriano Leverkuhn e que testa o sentimento de nacionalidade de Alberto.
Sem explicações, a narrativa transfere-se de 1891 para 1991 e, em vez de tomar um trem, Alberto embarca em um avião rumo ao futuro. Entre os passageiros encontram-se importantes nomes da cultura brasileira como João Gilberto, Glauber Rocha e Vicente Celestino. É assim que tempo, espaço valores são relativizados, mantendo-se a situação de reflexão. Fenômeno que pode ser interpretado como a confirmação de nossa tradição: interrogar-nos incessantemente o que é ser brasileiro. E assim continuar produzindo boas respostas poéticas, musicais, arte nacional enfim. Sem, no entanto, satisfazer-nos.
É interessante observar que se para João Silvério Trevisan a identidade é um problema nacional, coletivo e exige, ou melhor, sente falta de uma tradição; o oposto acontece com seu interlocutor literário. De fato, para Thomas Mann, a identidade é uma questão individual, relacionada com a ruptura da tradição burguesa.
Desde Os Buddeubrook (e principalmente nele) aparece uma preocupação com a decadência da tradição burguesa concretizada como uma involução familiar que caba por produzir homens totalmente debilitados fisicamente, inaptos para o comércio mas com desenvolvido espírito artístico. Em Tônio Krueger essa natureza está associada à ascendência mestiça, a mãe do personagem cujo nome dá título a novela é uma sensual espanhola, uma outra forma de romper com a tradição alemã. Do mesmo modo, em outros romances como A montanha mágica, Doutor Fausto e na novela A morte em Veneza os personagens que carregam consigo o signo da doença e da morte são marcados, ou melhor, abençoados com uma sensibilidade diferenciada e só podem realizar-se na arte.